domingo, 4 de março de 2012

Foto-Grafia .

Com uma flor na mão e mil imagens pra eternizar...

Pensei no que falar no meu primeiro post nesse blog sobre essa arte de eternizar um momento e cheguei à conclusão que devo dizer, primeiro, a minha intenção...
O que vou fazer aqui, não necessariamente em todos os momentos, mas em foco principal, será tentar ilustrar a palavra com imagens fotográficas, construindo um conceito diferente de imagem e texto, unindo contextos. Promover a união de dois ofícios e fazendo com que uma dê sentido a outra de tal forma que transmita algo a mais do que o sentimento que se tem ao ler só o texto, ou de observar só a imagem. Ilustrando a palavra com fotografias ou descrever fotografias através da palavra.

Mais importante que a intenção é o seu jeito de fazê-la:

Escolhi essa foto pra mostrar como minha alma canta no instante de um click. É bem assim mesmo, como podem ver... É com uma flor na mão que eu vou jogando meu corpo no mundo.
É muito amor.

Abrindo os trabalhos, abrindo os caminhos... Apaixonada.

Dando todo amor nisso para receber de volta, com uma bela imagem.

E para dar começo a essa empreitada, vou dar continuidade ao meu “projeto”. Escolhi um trecho de uma música que casa perfeitamente com o contexto fotográfico colocado...


Foto: Maria Anita Barreto


Risoflora.

“... E em vez de cair em tuas mãos preferi os teus braços,
E em meus braços te levarei como uma flor
Pra minha maloca na beira do rio, meu amor."

 - Chico Science & Nação Zumbi -



sábado, 3 de março de 2012

A criação do homem - Pareta Calderasch

Hoje é o dia em que o Gritando com a Mão abre espaço para um convidado. Nessa semana convidamos Pareta Calderasch, artista cheio de habilidades. CHEIO MESMO! De poeta à webdesigner! Vale a pena conferir a página de Pareta no Facebook: Pense Poesia.
  
   Diz uma lenda que o homem nasceu da mistura de larvas e flores que existia sobre o solo, foi acariciado diariamente pelo sol, lambido pelo vento e beijado pela chuva, até que um dia veio a existir como carne, devido ao amor que as coisas lhe dedicara, assim começou o caminho do homem na terra.

   Ele se achava único e poderoso por ser filho de todos os elementos do universo, no meio do seu corpo tinha um pequeno universo que era bem maior que o seu universo exterior, o qual chamou de umbigo. No umbigo constelações explodiam energias cósmicas fantásticas que o fascinava diariamente.

   O homem vivia em comunhão com todas as coisas, a terra onde deitava, a chuva que o banhava, o sol que o acordava todos os dias com luz, a lua que namorava todas as noites com as estrelas, o céu, que todos os dias sorria para ele. Um dia foi banhar-se numa cachoeira e chegando lá encontrou um similar, porém, mais belo, ser. Que também tinha umbigo mas não gostava de contemplar sua glória, apenas senti-lo. Seu corpo era como a forma dos rios e das águas era filha, ela se apresentou, mulher.

   O homem estranhou aquele novo ser mas logo se encantara, conheceram juntos muitas coisas, por ser filha das águas a mulher era sempre encantadora como o som das cachoeiras, contou-lhe que nasceu numa pequena rocha banhada todos os dias pelo rio mais belo daquele lugar, podia suportar coisas que talvez nenhum ser pudesse e por ser tão forte, de mês em mês, essa força brotava por alguns dias como uma luz tentando romper a escuridão, pois dentro dela existia a gênese, a primeira matéria da qual foi feita o universo e criou todas as coisas.O homem escrevia em plantas todos os dias o que descobria sobre a mulher e guardava no alto das montanhas.

   Um dia estavam tão ligados que misturaram seus corpos e começaram a sentir. A mulher sentia a força no umbigo do homem, o que lhe dava determinação e coragem. O homem sentia o amor e afeto do corpo da mulher o que lhe trazia amabilidade e doçura. Foram assim se misturando até que, por serem seres da água e da terra, formaram uma lama. O homem levantou em pânico e fugiu, deixando a lama sobre a mulher que continuou deitada em dores.

   Depois daquele dia ele passou tempos afastado da mulher, tinha receio do que tinha acontecido a ela e da culpa que poderia ter disso tudo, a lama no princípio era doce e aconchegante, mas no final causava pânico e tristeza. Um dia, passeando perto da cachoeira ele viu um pequeno homem caminhando, seguiu o homenzinho por um tempo e este o levou até a mulher que lhe disse que usou sua capacidade de gênese para transformar a lama em um novo ser, que tem o umbigo fechado. Assim foram surgindo seres, homens e mulheres, até que eles passaram a se desapegar dos elementos do universo exterior, o que causou grandes instabilidades para eles.

   O ventou parou de beijar-lhe e juntou-se as águas para trazer fortes temporais, os seres ficaram cada vez mais unidos para resistir, então a terra dividiu-se para que eles se separassem, formando grandes porções de terra, o céu carregou as águas para ele com a ajuda do vento e lançava cada vez mais forte para baixo, as vezes carregando até mesmo rochas, as rochas que não queriam entrar na briga abriram cavernas para abrigar os seres. Vendo que nunca ganhariam a guerra, a terra tirou do homem a sua capacidade de renovação e o engoliu quando já estava velho como uma terra infrutífera, a mulher em prantos, ao assistir a cena pulou do monte e faleceu na beira do rio.

   Assim os elementos tramaram que jamais fariam outro homem como aquele e tentariam ter paz com os seres que sobreviveram da guerra.

   Um dia um homem subiu nas cavernas e encontrou as folhas do primeiro homem, leu tudo aquilo, descobriu a grandiosidade da mulher e teve medo. Então ele reescreveu todas as coisas e apresentou para as tribos dizendo que a mulher nasceu no pântano e somente sobrevivera devido aos cuidados do homem e devia ser eternamente grata dando-lhe filhos. Disse também que deveria sempre o homem tratá-la com ternura por ser mais frágil e como o umbigo de todos os homens agora eram fechados, escolheu o falo como cetro para reinar.

   Assim que soube que existiam outros seres na terra, empreendeu uma campanha educadora com luz e sangue, matou muitos, destruiu milhões e convenceu seu povo que faziam isso por serem uma raça superior aos outros, por serem os conhecedores das "verdades". Verdades essas que ele mesmo escrevera nas folhas, lá no alto do monte.
Pareta Calderasch

sexta-feira, 2 de março de 2012

Mais uma sugestão...


  Se imagine num campo aberto, daqueles com a vegetação baixa e verde, com cheiro de terra que acabara de ser regada pela chuva, de fumaça, pois muitas fogueiras foram feitas no campo por homens e mulheres e com os diversos aromas que vinham das inúmeras receitas.
Você começa a prestar atenção em um homem que, entre muitos outros, alimenta sua fogueira, logo à frente, com lenhas e palha, que esquenta o fundo de uma panela alta, larga e antiga, que dela sai uma fumaça densa que não cessa. O homem mexia e provava com uma colher de madeira grossa o caldo de alguma coisa que parecia uma sopa.

  Esse campo aberto representa toda a possibilidade de ação social. Com a vastidão do campo, qualquer pessoa que tivesse interesse podia armar uma fogueira, que representa, nesse caso específico, a cultura, e como toda fogueira precisa ser alimentada, por inúmeras opções de alimentação, e doar uma atenção para ela não apagar. A panela retrata a Bahia, que ferve na cultura e esquenta os ânimos e desejos de sua população, que toma forma e gosto nessa quentura, que chega perto de queimar no Carnaval. Gosto esse que precisa ser sentido e conhecido pelo mobilizador social para entender e perceber o povo a ser atingido por essa cultura, sendo esse mobilizador um empresário milionário, um pequeno empresário, ou até mesmo um grupo de jovens planejando a festa da sala.

  A Bahia tem uma possibilidade cultural incrível, como todos nós sabemos, mas, ainda sim, algumas pessoas reclamam que não tem espaço, nem incentivo e nem apoio para se manifestar artisticamente e também se queixam da falta de opções de lazer na sua cidade.

  De fato a população tem direito e razão de reclamar, pois muitas das opções mais conhecidas são caras, ou distantes, que, por culpa do transporte público pouco cuidado e convidativo, acaba dificultando ainda mais esse acesso. Além da, quase, escassez de opções de lazer mais específicas, onde o público prefere atividades menos populares ao gosto dos baianos.

  Mas, já que não é todo mundo que tem o impulso de criar novas possibilidades, por falta de condição financeira para bancá-las, por não saberem como o fazer, ou por falta de atitude, optando, apenas, reclamar, sem nenhuma responsabilidade, vamos consumir o que nos for oferecido, catando o que nos interessa (como minha avó cata os grãos de feijão da feira, só que na proporção inversa, onde, nesse caso, é mais raro encontrar os grãos podres que os sadios.)

  Evidente, interessante e batido é a sugestão do uso da internet, tanto para criar e divulgar seus trabalhos quanto para se interar sobre as novidades (confiram a página do Sebo do Futuro no Facebook). Também temos a opção de frequentar os novos espaços que, apesar de, em muitas experiências, não terem uma vida tão longa assim, nos apresenta novos trabalhos e ideias de novos artistas das mais diversas áreas e também nos mostra os artistas que estão a mais tempo na batalha. As casas mais tradicionais e conhecidas, apesar de muitos considerarem obsoletas, continuam nos oferecendo a boa arte e continuam sendo ótimas opções.

  Galera! Isso é o que nos resta! Infelizmente muitos de nós não podemos abrir um espaço cultural para dar uma oportunidade a um talento vizinho, ou um ídolo em necessidade. Muitos de nós não temos condições de publicar um livro, estrear uma peça de teatro, ou um roteiro de um filme, mas a gente tem que consumir e dar o apoio necessário para que os bravos, que trabalham e nos disponibilizam, às vezes garimpando em outros estados, ou países, materiais interessantes e muito importantes, continuem nos beneficiando com suas iniciativas.

  Vamos sair da comodidade e do aconchego da panela e ajudar esse homem a alimentar essa fogueira da cultura, consumindo e trabalhando, para possamos gozar desse, para alguns pequeno luxo, e, para outros, dessa necessidade por mais tempo e que nossos filhos, netos, bisnetos... enfim, que eles também possam aproveitar dessa cidade incrível, que a criatividade transborda e deixa nossa sopa ainda mais gostosa!

  Tenho três sugestões de espaços para música, artes plásticas, cinemas e teatro e peço, para quem se interessar, que também divulguem algumas opções de lazer:

  Música :
- Pérola Negra – Loja no Canela, ao lado da Escola de Teatro da UFBA, que dispõe de um grande catálogo de CDs, que vão da música regional, passando pela música erudita, jazz, MPB, pop e artistas independentes da Bahia, DVDs, Livros, Camisas personalizadas. Além de um café, o Chão de Estrelas, onde podemos degustar de um café delicioso e aproveitar uma Bohemia sempre gelada e volta e meia rolam apresentações. E, claro, conhecer Luciano, o astro da Bahia.
        Funciona de Segunda à Sexta, das 9h até as 19h, e aos Sábados, das 9h até as 14h.
- Postudo – Bar restaurante que sempre tá tendo shows de qualidade. Muitos dos músicos mais influentes do Brasil se apresentam e circulam por lá. Além de uma bela opção de cardápio, tanto de bebidas, quanto de comida. Se encontra no, clássico, Rio Vermelho, próximo ao Largo da Dinha.
         Funciona da Segunda à Sábado, das 12h às 15h e das 18h às 1h.
- Aconchego da Zuzú – Lá na Rua Quintino Bocaiúva, Fazenda Garcia, o samba, o choro e tantas outras opções de música boa nos recebe nesse espaço mais que convidativo! Comida boa, música boa, clima bom e energia boa! Nem vou falar mais nada! Vão logo lá!
         Funciona da Terça do Domingo para o almoço e da Quinta à Domingo à noite para o som, das 20:30h até às 0h.

Museu:
- Palacete das Artes – Na Rua da Graça esse espaço nos maravilha ao visitar a arte de Auguste Rodin, em exposição fixa, e de tantos outros artistas, como Bel Borba, que está expondo lá, até dia 23 de Março.
         Funciona de Terça à Domingo, das 10h até às 18h
- Museu de Arte Moderna – O MAM, ali na Avenida Contorno, é um mundo das artes. Espaço grande que desfrutaremos de um acervo fixo espalhado pelo Solar do Unhão, de Mário Cravo à Carybé, exposições temporárias, uma Jam Session no Sábado emoldurado pelo pôr-do-sol, cinema e várias opções de cursos e oficinas das mais diversas áreas das artes plásticas. A fogueira lá está a folgo alto!
        Funciona da Terça à Sexta das 13h às 19h e Sábados e Domingos das 14h às 20h.
- Museu de Arte da Bahia – No Corredor da Vitória, o MAB sempre tem algo legal. Fui, recentemente, e encontrei lá uma exposição que apresentava várias artistas, como Tarsila do Amaral e Djanira, com pinturas, litogravura, xilogravura e algumas outras técnicas. Além de, em uma dessas salas desse casarão imponente, uma exposição de Carybé, onde o mestre representou a festa de Iemanjá e a lavagem do Bonfim. Além de um acervo de pinturas, cristais, porcelanas chinesas, peças sacras e outros elementos históricos de Salvador.
        Funciona da Terça à Sexta das 14h às 19h e Sábado e Domingo das 14:30h às 18:30h.

 Cinema:

- Cinema do Museu – Circuito alternativo no Corredor da Vitória, atrás do Museu Geológico. Além do cinema, um café nas sombras de uma grande e velha árvore.
- Glauber Rocha / Espaço Unibanco – Salas confortáveis, filmes de qualidade, livraria e um visual da Bahia de Todos os Santos maravilhoso! Na frente da estátua de Castro Alves.
- Cine Vivo – No shopping Passeo, no Itaigara, está esse novo cinema. Muito bom!

Teatro:

- Vila Velha – Tradicional espaço de convivência dos artistas e simpatizantes no Campo Grande. Cursos livres, espetáculos mais que interessantes e uma energia maravilhosa!
- Sitorne – No Rio Vermelho. Teatro interessante e importante porta para os bons ativistas dessa arte.
- XVIII – Numa das ruas do Pelourinho esse espaço guarda as marcas dos mais famosos atores e músicos daqui.

quinta-feira, 1 de março de 2012

'É pela paz que eu não quero seguir admitindo...'

A vida não cansa de se apresentar e hoje mando, a pedido de Lorena Brito, uma Carta Aberta feita após o falecimento de Carioca, "pobre, negra, não estudou, era usuária de crack, era prostituta". Mais uma das mortes desconhecidas de Salvador.
 
 Hoje foi um dia triste.
Choveu em Salvador. A polícia parou e o clima de insegurança começa a se instalar. O Pelourinho esteve mais silencioso que de costume. Boa parte da equipe do Projeto Força Feminina estava em atividades externas...
Hoje foi um dia triste e senti um vazio.
... Vazio por hoje mais uma mulher morreu nessa cidade. Mais uma dentre várias.
Hoje mais uma mulher foi enterrada nessa cidade. Dentre várias...

Hoje foi enterrada mais uma mulher que morreu por conta da violência contra as mulheres. Mais uma mulher vítima de estupro - e isso não foi destaque na mídia nacional.
Ela era pobre, negra, não estudou, era usuária de crack, era prostituta.
E o vazio no Pelourinho se fez eco... silêncio... ninguem gritou por essa morte.
Nem mesmo sua filha, no enterro da mãe conseguia gritar... quem escutaria?
...
Escutei. Sem que outras pessoas que ali estavam escutaram...

O que fazer com o que se escutou?
sentir... dor... profunda
sentir...dor...revolta
sentir...dor..bandeira de luta.

Não à violência contra À mulher!
Não à desigualdade social!
Não À exclusão e opressão!

O Projeto Força Feminina e as mulheres do pelourinho seguirão suas vidas... mas estão em luto...
E quero profundamente que o luto se faça luta!

Luz e vibração positiva, Carioca!
Seja paz!
 
Lorena Brito
 Salvador, 01/02/21012